Ciência e Inclusao

CIÊNCIA E INCLUSÃO KEY CONTRA O RACISMO SOBRE AS MIGRAÇÕES DIÁLOGO APRENDIZAGEM E INTUIÇÃO

É inútil ensinar um qualquer conteúdo científico sem ajudar a desenvolver a competência para analisá-lo criticamente e interpretá-lo autonomamente. De forma análoga, é limitador utilizar as boas notas como principal motivação para desenvolver competências úteis. Um contexto escolar em que as competências académicas e as competências sociais se reforçam mutuamente tem um enorme potencial transformador. Neste artigo argumentaremos que esta escola está ao nosso alcance e que KEY 1.0 pode dar um passo para atingi-la.


Uma página deste website é dedicada a artigos de pedagogia (este é o link). Alguns deles mostram evidência científica muito sólida de que a discussão entre pares é francamente mais eficaz na aula de ciências do que o método tradicional. E há várias explicações plausíveis para este resultado, das quais Eric Mazur enumera algumas nesta entrevista , e outras mencionaremos aqui. Uma pequena minoria de alunos, tipicamente os 10%, tem uma relativa facilidade em compreender a Física. Na verdade, não é uma capacidade cognitiva que carateriza este grupo (se bem que esta poderá ajudar mais tarde, para os poucos que quiserem tornar-se físicos teóricos), mas sim uma postura mental perante a aprendizagem, as chamadas "crenças epistemológicas". Conforme Hammer mostra no seu artigo do 1994, elas fazem toda a diferença, e há condições que favorecem as melhores entre elas. A discussão é uma delas. Se o estudante sentir que o seu objetivo é mostrar o que sabe a uma figura de autoridade, dificilmente se interessará pelo significado dos conceitos. Antes receará as vergonhosas consequências dum mau desempenho e procurará os atalhos que parecem evitá-las: o número certo para substituir na fórmula certa, o algoritmo que é suposto utilizar, a frase que é suposto dizer ... tudo sem se preocupar muito com o significado do que está por detrás da resposta certa. A discussão diminui a possibilidade disto acontecer na medida em que cria um clima colaborativo, em que o conteúdo académico é o centro à volta do qual se constrói coletivamente um sentido. Falar com os pares ajuda os alunos a assumir o erro como parte natural do processo de construção do sentido das coisas. Este processo não é apenas um método efetivo de ensinar as ciências, é também democrático e horizontal na sua essência. Já foi, inclusive, utilizado para trabalhar questões de género entre os estudantes de engenharia (veja Felder et al 1995). KEY 1.0 quer utilizá-lo para impulsionar uma atitude acolhedora face ao fenómeno da migração.

Quaisquer que sejam as razões é um facto comprovado pela estatística que a discussão é uma ferramenta pedagógica extremamente eficaz. Se aprender a ciência é uma questão de hábitos mentais, e se a discussão é uma ferramenta eficaz de aprendizagem da ciência, será que esta ferramenta pode ajudar os alunos também no desenvolvimento do pensamento racional no geral? É uma hipótese que vale a pena testar, e queremos fazê-lo numa fase mais avançada do projeto. Mas qual é a importância do pensamento racional? O papel da espírito crítico - pensar bem - é fazer acontecer aquilo que sentimos que devia acontecer. Este conceito será melhor ilustrado com um exemplo, um pequeno experimento mental. Imagine de ter uma querida amiga, simpática e gentil, e de gostar muito dela: a Ana. A Ana é feliz e está cheia de vontade de viver, mas tem uma doença grave. Imagine que a cura mais eficaz para a doença da Ana seja um medicamento, o Alfaprotomol (espero que na realidade não exista nenhum fármaco com esse nome), produzido de forma legítima e sustentável, respeitando os trabalhadores, e facilmente disponível nas farmácias. A Ana não pode sair de casa, não tem acesso a internet nem ao telefone, e depende completamente de si para o aprovisionamento de Alfaprotomol. Será evidente que a sua vontade de adquirir esse fármaco mede a sinceridade do seu afeto, ao passo que qualquer negligência deliberata na sua procura seria um péssimo sinal. Quase de certeza, a Ana pode confiar em si. Mas suponhamos agora que tem a convicção profunda de que o Alfaprotomol não é eficaz. Esta convicção está relacionada com as algumas das suas crenças mais ferrenhas ou com costumes da sua sociedade que valoriza muito. Existem provas esmagadoras a demonstrar que o Alfaprotomol é o melhor medicamento, e não há nenhuma razão para suspeiar de más condutas grave na forma como é produzido. Mas infelizmente para a coitada da Ana, a opinião contrária é parte essencial da sua visão do mundo, uma coisa que o ser humano consegue proteger muito bem face a mais convincente evidência. Muito provavelmente, a Ana haverá-de ficar contente com a segunda melhor cura para a sua doença. O seu afeto não deixa necessariamente de ser sincero, mas, as vezes, as convicções profundas são motivações humanas mais poderosas. Imagine agora, no lugar da Ana e da sua doença, a sociedade, a humanidade, o planeta, e os seus problemas. Ou uma minoria, e a sua exclusão social. Daí a importância de saber pensar bem, que é uma capacidade que se desenvolve apenas em determinadas circunstâncias, e que traz a possibilidade de viver de acordo com os próprios valores.

Apesar disto, tenho muitas vezes a impressão que a racionalidade ganhou uma má reputação. Suspeito que esta atitude seja o produto duma falsa dicotomia entre razão e valores. A separação completa entre intelecto e afeto, pensamento e emoção, raciocínio lúcido e sentimento … é uma simplificação da linguagem. É uma simplificação útil e inevitável. Poder entender pensamento e emoção como categorias distintas é imprescindível para a comunicação. Contudo, é bom lembrar que são os extremos do mesmo espectro e que não há uma fronteira definida que os divide, mas sim uma zona cinzenta onde muitas das nossas atividades significativas acontecem. Por exemplo, enquanto escrevo estou a exercer a minha inteligência na tentativa de elaborar um discurso claro que explique conceitos que me despertam emoções. É impossível dizer qual parte de mim está a pensar e qual está a sentir. Mais, o pensamento puro não existe, porque seria absolutamente inútil pensar se não tivéssemos emoções ligadas ao objeto do nosso pensamento. Quando falamos duma pessoa racional no sentido pejorativo da palavra, não falamos duma pessoa sem emoções, mas sim duma pessoa que ativa a emoção da ganância, por exemplo, quando preferíamos que ativasse o sentimento menos mesquinho da amizade. Até os psicopatas, pessoas patologicamente frias e manipuladoras, sentem emoções. Eles têm uma assustadora facilidade em desligar completamente a sua empatia, e não sentem medo e angústia como o resto da população, mas não deixam de ter um complexo espectro de emoções positivas e negativas, sem das quais não poderíamos explicar as suas ações. O único desfecho possível para uma vida perfeitamente racional e sem emoções é o suicídio, porque sem emoções positivas, portanto sem prazer nenhum, não há nada para o que valha a pena gastar os recursos necessários para manter o nosso corpo vivo.

O meu propósito com este artigo não é converter opositores da ciência em seus fãs, objetivo esse impossível de atingir e desprovido, ao meu ver, de qualquer interess ou utilidade. A mensagem que espero que passe é que construir ligações insólitas entre conceitos em lugar de falsas dicotomias ajuda a ver mais longe. A eficácia do ensino da ciência, as competências sociais das alunas, a inclusão de todas elas num contexto acolhedor, a sua motivação, considerações mais gerais de carater social ... todos estes aspetos beneficiam da inovação que pretendemos promover. Temos ótimas razões para pensar isso e, em alguns casos, até clara evidência. Falta implementar.

Giancarlo Pace
Coordenador Equipa Key 1.0.

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